São Paulo
Av. Brig. Faria Lima 3064, 14º Andar
01451-000 - São Paulo - SP - Brasil
Rio de Janeiro
Av. Rio Branco 181, 27º Andar
20040-918 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil
A recuperação judicial, enquanto instrumento de preservação da empresa e reorganização da atividade econômica, envolve uma série de mecanismos jurídicos que demandam criteriosa análise técnica, especialmente quando o devedor integra grupo societário ou mantém estruturas financeiras complexas. Nesse contexto, ganham relevo os institutos da consolidação processual e da consolidação substancial, bem como o tratamento jurídico conferido aos créditos decorrentes de Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACC), temas que vêm sendo objeto de intensos debates doutrinários e jurisprudenciais.
Este artigo analisa os critérios legais e jurisprudenciais aplicáveis à consolidação processual e à consolidação substancial na recuperação judicial, bem como o tratamento jurídico dos créditos decorrentes de Adiantamento de Contrato de Câmbio.
O procedimento da recuperação judicial inicia-se com a apresentação do pedido pelo devedor, seguido do deferimento do processamento, momento em que são indicados o administrador judicial e o início do stay period, podendo o magistrado determinar, previamente, a realização de constatação prévia. Após a publicação do edital com a relação de credores apresentada pelo devedor, abre-se prazo para habilitações e divergências, culminando na apresentação do plano de recuperação judicial.
Na sequência, o administrador judicial apresenta a segunda relação de credores, acompanhada de parecer sobre as divergências e habilitações, ensejando nova fase de impugnações. Encerrado o prazo para objeções ao plano, caso seja apresentada objeção por algum credor, convoca-se a Assembleia Geral de Credores, cujo desfecho poderá resultar na homologação judicial do plano de recuperação. O stay period, previsto no art. 6º da Lei n.º 11.101/2005, tem duração inicial de 180 dias, admitida prorrogação por igual período.
A consolidação processual configura-se como espécie de litisconsórcio ativo facultativo, destinada à coordenação de atos processuais e à promoção da economia e da celeridade procedimental. Nessa modalidade, preserva-se integralmente a autonomia patrimonial e jurídica de cada sociedade integrante do grupo, ainda que os pedidos sejam apresentados de forma conjunta e o plano de recuperação seja formalizado em documento único, desde que contenha meios de recuperação independentes e específicos para cada devedor.
Diversamente, a consolidação substancial constitui medida de caráter extremo, pois promove a unificação dos ativos e passivos das sociedades envolvidas, tratando-as como um único devedor. Trata-se de técnica que implica o afastamento da autonomia patrimonial, com a consequente superação da personalidade jurídica das empresas do grupo, impondo a apresentação de plano de recuperação único e unitário.
Nos termos do art. 69-J da Lei de Recuperações e Falências, a consolidação substancial obrigatória pode ser autorizada pelo juízo desde que constatadas a interconexão e confusão entre ativos ou passivos das sociedades do grupo, de modo que não seja possível a identificação da titularidade patrimonial sem excessivo dispêndio de tempo ou recursos.
Além dessas condições, exige-se, cumulativamente, a presença de, ao menos, dois indicadores adicionais, tais como a existência de garantias cruzadas, relação de controle ou dependência econômica, identidade total ou parcial do quadro societário ou atuação conjunta no mercado. A consolidação substancial voluntária, por sua vez, decorre, em regra, de deliberação da coletividade de credores, visando a eficiência econômica, a redução de custos processuais e a maximização do retorno creditório.
Os efeitos da consolidação substancial podem ser significativamente distintos entre os credores das sociedades envolvidas. Conforme ilustrado na apresentação, sociedades individualmente solventes podem ter sua posição deteriorada após a unificação patrimonial, enquanto sociedades deficitárias podem se beneficiar da consolidação, redistribuindo o risco entre os credores do grupo. Tal realidade evidencia o caráter sensível da medida e reforça a necessidade de criteriosa fundamentação judicial.
Embora apresentem pontos de contato, a consolidação substancial não se confunde com o incidente de desconsideração da personalidade jurídica previsto no art. 50 do Código Civil. Enquanto a consolidação substancial opera no âmbito do direito da empresa em crise, com efeitos erga omnes em relação aos credores concursais, a desconsideração possui natureza inter partes, voltada à responsabilização de sócios ou administradores por abuso da forma societária, preservando, em regra, a personalidade jurídica da sociedade.
O Adiantamento de Contrato de Câmbio constitui instrumento de financiamento às exportações, permitindo ao exportador o recebimento antecipado de recursos em moeda nacional. A Lei n.º 11.101/2005 estabelece, em seu art. 49, § 4º, que os créditos decorrentes de ACC não se submetem aos efeitos da recuperação judicial, por expressa opção legislativa voltada à preservação da segurança jurídica dessas operações e ao fomento do comércio exterior.
O Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento no sentido de que a descaracterização do ACC, para fins de sua requalificação como mútuo bancário, exige demonstração probatória do desvio de finalidade, inclusive mediante a realização de perícia técnica. Em precedentes recentes, a Corte reafirmou a extraconcursalidade dos créditos decorrentes de ACC, ressalvando hipóteses excepcionais devidamente comprovadas.
Os temas da consolidação substancial, da consolidação processual e do tratamento dos ACCs evidenciam a complexidade jurídica da recuperação judicial contemporânea. A correta aplicação desses institutos exige análise rigorosa dos elementos fáticos e normativos, sob pena de comprometimento do equilíbrio entre a preservação da empresa, a segurança jurídica e a tutela dos interesses dos credores.
Artigo elaborado por Lucas Gomes de Azevedo, advogado nas áreas de Créditos Inadimplidos e Aquisições de Carteiras de Crédito, e Recuperações Judiciais e Extrajudiciais e Falências.
Se você tiver alguma dúvida ou quiser continuar a conversa acerca de qualquer dos aspectos aqui debatidos, entre em contato conosco por meio do e-mail comunicacao@pinheiroguimaraes.com.br.
Leia também:
Confira mais artigos e notícias, clicando aqui.
Fraude à execução e fraude contra credores: distinções, fundamentos e implicações práticas
Sócio do Pinheiro Guimarães é incorporado ao International Insolvency Institute (III)
Inteligência Artificial: aspectos gerais, responsabilidade civil e utilização no Judiciário
Recuperação Judicial: Consolidação Substancial, Consolidação Processual e o Tratamento dos ACCs à Luz da Jurisprudência Recente
Jurisprudência e precedentes vinculantes no CPC/15: Fundamentos, técnicas de aplicação e reflexos processuais
Instrumentos Híbridos: como unir capital e dívida para destravar projetos e fortalecer a governança
Decisão de adequação mútua entre Brasil e Europa beneficia empresas e indivíduos ao reconhecer a equivalência entre LGPD e GDPR
Mercado de Capitais em Transformação: retração dos IPOs, expansão do crédito privado e o avanço de estruturas como o “IPO reverso”
Inteligência Artificial: aspectos gerais, responsabilidade civil e utilização no Judiciário