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Inteligência Artificial: aspectos gerais, responsabilidade civil e utilização no Judiciário

Inteligencia Artificial aspectos gerais, responsabilidade civil e utilizacao no Judiciario - Pinheiro Guimaraes

A incorporação da inteligência artificial (IA) em diversas áreas da sociedade constitui uma das transformações tecnológicas mais relevantes da atualidade. O Projeto de Lei n.º 2.338/2023 define a IA como um sistema baseado em máquina que, com graus distintos de autonomia, é capaz de inferir a partir de dados recebidos e gerar resultados que podem consistir em previsões, conteúdos, recomendações ou decisões com impacto em ambientes virtuais, físicos ou reais.

 

Na União Europeia, a AI Act de 2024 adota conceituação semelhante, ao caracterizar a IA como sistema que, a partir de objetivos definidos pelo ser humano, produz saídas capazes de influenciar os ambientes com os quais interage. Os elementos centrais dessas definições residem na autonomia, na capacidade de inferência e na produção de resultados com consequências jurídicas, econômicas e sociais.

 

Este artigo analisa os principais aspectos jurídicos da inteligência artificial, com enfoque na responsabilidade civil, nos desafios técnicos e em sua utilização pelo Poder Judiciário.

 

O problema central: impactos e lacunas normativas

 

Impacto econômico

Impacto econômico

Indenizações milionárias sem precedente jurídico claro

Impacto social

Questões de segurança, privacidade e proteção de dados

Impacto jurídico

Impacto jurídico

Lacunas normativas comprometem a segurança jurídica

 

O uso da IA gera impactos de ordem econômica, social e jurídica. No campo econômico, observa-se a possibilidade de indenizações de grande porte em razão de danos decorrentes de sua aplicação. Sob o prisma social, surgem preocupações relacionadas à privacidade, à segurança e à proteção de dados. Já na esfera jurídica, as lacunas normativas comprometem a segurança jurídica e dificultam a previsibilidade de decisões.

 

Responsabilidade civil aplicada à inteligência artificial

 

A responsabilidade civil ocupa posição central no debate sobre a IA. O Código Civil brasileiro, em seus artigos 186, 187 e 927, estabelece a obrigação de reparar danos decorrentes de atos ilícitos, seja por ação ou omissão, negligência ou imprudência, ou ainda pelo abuso de direito.

 

O Código de Defesa do Consumidor adota, em determinados casos, a responsabilidade objetiva em razão de defeitos em produtos ou serviços. Diante disso, emerge a questão fundamental: quem responde pelos danos oriundos de decisões autônomas ou automatizadas da IA? A ausência de regulamentação específica amplia a complexidade da resposta.

 

O Projeto de Lei n.º 2.338/2023 e os regimes de responsabilidade

 

O Projeto de Lei n.º 2.338/2023 busca fornecer diretrizes para a definição do regime aplicável. Prevê que a responsabilidade poderá ser objetiva ou subjetiva, a depender da análise de critérios como:

 

  • natureza e gravidade do dano;
  • grau de risco do sistema de IA;
  • previsibilidade do dano;
  • possibilidade de controle ou supervisão;
  • capacidade técnica dos envolvidos.
  •  

    O projeto também estabelece uma classificação de risco dos sistemas de IA: risco excessivo, cuja utilização é vedada por comprometer a saúde ou a segurança; alto risco, como em veículos autônomos e diagnósticos médicos; e níveis intermediários, de menor criticidade.

     

    Desafios técnicos

     

    A regulamentação da responsabilidade civil aplicada à IA enfrenta obstáculos técnicos relevantes, tais como:

     

  • a tensão entre transparência e sigilo, decorrente do conflito entre cooperação técnica e segredo comercial;
  • a complexidade da cadeia de valor, em que alterações substanciais no sistema podem atribuir a terceiros o papel de desenvolvedor;
  • a chamada black box, ou opacidade algorítmica, que dificulta a prova do nexo causal entre a decisão da IA e o dano.
  •  

    A utilização da IA no Judiciário

     

    No Brasil, o próprio Poder Judiciário vem incorporando a IA em suas atividades, buscando maior eficiência processual, com redução de prazos e otimização da análise de demandas.

     

    Contudo, decisões judiciais recentes ressaltam a necessidade de cautela no uso dessas ferramentas. Tribunais já registraram que a IA, embora útil, não possui capacidade de interpretar conceitos jurídicos específicos nem de analisar adequadamente as particularidades do caso concreto. Assim, reforça-se a exigência de que peças processuais eventualmente elaboradas com auxílio de IA sejam submetidas à revisão humana, a fim de garantir o rigor técnico e a profundidade analítica indispensáveis à atividade jurídica.

     

    Conclusão

     

    A inteligência artificial representa um avanço tecnológico de grande impacto, mas cuja utilização exige parâmetros jurídicos claros. O debate em torno da responsabilidade civil, da classificação de riscos e da aplicação de critérios de controle e supervisão é essencial para compatibilizar a inovação tecnológica com a segurança jurídica.

     

    A consolidação de normas específicas permitirá que a IA se desenvolva em conformidade com os princípios constitucionais e os valores fundamentais do ordenamento jurídico, assegurando equilíbrio entre inovação, proteção dos direitos da personalidade e preservação da boa-fé nas relações jurídicas.

     

    Este artigo foi elaborado por Giovana Neves Pereira, advogada na área de Contencioso Cível e Arbitragem.

    Se você tiver alguma dúvida ou quiser continuar a conversa acerca de qualquer dos aspectos aqui debatidos, entre em contato conosco por meio do e-mail comunicacao@pinheiroguimaraes.com.br.


     

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